A queilite angular, conhecida como boqueira, é uma inflamação com fissura, vermelhidão ou crosta em um ou nos dois cantos da boca. A saliva acumulada costuma iniciar a irritação; fungos ou bactérias podem se somar, mas nem toda boqueira é uma infecção. O tratamento funciona melhor quando protege a pele e corrige a causa presente.
Como reconhecer e o que pode parecer igual
A lesão fica no encontro dos lábios, onde a pele dobra quando a boca abre. Pode arder ao falar, comer ou escovar os dentes. A umidade repetida fragiliza a barreira da pele e abre uma rachadura; lamber os lábios ou puxar a crosta mantém o ciclo de irritação.
Herpes costuma começar com pequenas bolhas agrupadas, que depois formam erosões ou crostas, e pode reaparecer no mesmo ponto. Impetigo tende a formar crostas amareladas que se espalham para a pele próxima. Dermatite de contato pode alcançar outras áreas dos lábios e acompanhar o uso de cosméticos, pasta dental ou medicamentos locais.[4] Uma fissura persistente de um só lado, uma úlcera endurecida ou uma mancha que não cicatriza precisa ser examinada para confirmar o diagnóstico.
Por que aparece e por que volta
Saliva presa nos cantos é um fator frequente, sobretudo quando há dobra profunda, perda de dentes, prótese que não se ajusta bem ou hábito de lamber os lábios. A saliva macera a pele, isto é, deixa-a úmida e vulnerável. Boca seca participa de outra forma: a falta de saliva reduz a proteção contra microrganismos dentro da boca e favorece infecção por fungos.[6]
Candida (levedura) e bactérias como Staphylococcus aureus podem colonizar ou infectar a fissura. Também entram no diagnóstico eczema, alergia de contato, irritação por retinoides e, em casos recorrentes, deficiência de ferro ou vitaminas do complexo B, diabetes e outras condições que alterem a defesa da pele.[1], [3], [4]
Se a lesão reaparece apesar de proteção local, o exame procura qual fator continua presente. A suspeita de deficiência de ferro, de vitaminas ou de diabetes pode ser investigada por exames de sangue.
Como o diagnóstico orienta o tratamento
Na maioria das vezes, o aspecto e a localização bastam para o dermatologista reconhecer a queilite angular. Se não melhora com a primeira abordagem, se recorre ou se a aparência não é típica, uma coleta superficial pode pesquisar fungos e bactérias.[1], [2]
Quando há placas brancas removíveis ou vermelhidão dolorida dentro da boca, o médico avalia candidíase oral associada. Esse achado reforça a suspeita de participação da Candida na boqueira; tratar o foco dentro da boca também ajuda a reduzir recorrências.[1]
Tratamento por causa
Proteção da pele: uma camada fina de vaselina ou outro protetor de barreira reduz o contato com saliva enquanto a fissura fecha. Secar os cantos com delicadeza após comer e evitar lamber ou arrancar a pele também interrompe a maceração; essas medidas podem ser mantidas junto ao tratamento da causa.[1]
Candida provável: miconazol em creme é uma opção antifúngica, geralmente em um curso de 10 a 14 dias. A escolha considera a extensão da lesão e os medicamentos em uso.[1] O miconazol pode interagir com varfarina, fenitoína e sulfonilureias, por isso o médico precisa revisar esses medicamentos antes de escolhê-lo.
Infecção bacteriana: o ácido fusídico é uma opção descrita para queilite angular bacteriana. Crosta amarelada que se espalha pode corresponder a impetigo; quando a avaliação confirma essa infecção, mupirocina tópica pode ser indicada. A escolha depende do agente e da apresentação da lesão.[1], [4]
Irritação ou alergia: a conduta prioriza barreira e retirada do produto irritante. Se a inflamação for intensa e infecção já tiver sido afastada, o dermatologista pode considerar um corticoide tópico por curto período. Usado sozinho sobre uma infecção, ele pode disfarçar os sinais e permitir agravamento; por isso, o diagnóstico vem antes dessa escolha.[7] Suspeita persistente de alergia pode levar a testes de contato.[5]
Fator mecânico ou sistêmico: prótese mal ajustada pede correção odontológica. Deficiência documentada é tratada com reposição do nutriente em falta. Se houver diabetes ou outra condição associada, seu controle faz parte do manejo.
Resposta e retorno
A resposta aparece como redução da dor, fechamento da fissura e recuperação da pele nos cantos da boca.[1] A melhora costuma começar nos primeiros dias, com resolução em torno de duas semanas quando a causa é controlada. Se a fissura persiste ao final do tratamento indicado, melhora só parcialmente, volta ou se espalha, o retorno serve para rever a causa e ajustar a conduta.[5], [1] Febre, inchaço progressivo ou dificuldade para comer justificam avaliação mais rápida.
Referências
- Health Service Executive. Angular cheilitis guideline. V2.0, 2023; publicada no portal em 2026. Diretriz clínica.
- Ohman SC, Jontell M. Treatment of angular cheilitis: the significance of microbial analysis, antimicrobial treatment, and interfering factors. Acta Odontol Scand. 1988. PubMed.
- Cabras M, et al. Treatment of angular cheilitis: a narrative review and authors’ clinical experience. Oral Dis. 2020. PubMed.
- MSD Manual Profissional. Úlceras labiais e queilite. Manual clínico.
- DermNet. Angular cheilitis: treatment. Revisão clínica.
- National Institute of Dental and Craniofacial Research. Dry Mouth. Função protetora da saliva.
- DermNet. Topical steroid. Efeito sobre infecções cutâneas.